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A Doutrina dos Anjos


Existem claras evidências da crença na existência dos anjos desde o início da era cristã. Uns eram considerados bons, e outros maus.Os primeiros eram tidos em alta estima, como seres pessoais de elevada categoria, dotados de liberdade moral, engajados no jubiloso serviço de Deus, e empregados por Deus para atender ao bem-estar dos homens. De acordo com alguns dos primeiros pias da igreja, assim chamados, os anjos têm corpos perfeitos e etéreos. A convicção geral era que os anjos forma criados bons, mas alguns abusaram da sua liberdade e caíram, apartando-se de Deus. Satanás, que era originariamente um anjo de classe eminente, era considerado o chefe deles. Entendia-se que a causa da sua queda estava no orgulho e numa ambição pecaminosa, enquanto que a queda dos seus subordinados era atribuída à sua cobiça das filhas dos homens. Este conceito baseava-se no que nesse tempo constituía a interpretação comum de Gn 6.2. Ao lado da idéia geral de que os anjos bons atendem às necessidades e ao bem-estar dos crentes, a noção específica de anjos da guarda para igrejas individuais e pessoas individuais era agasalhada por alguns. Calamidades de várias espécies, como doenças, acidentes e perdas, muitas vezes eram atribuídas à influência danosa de espíritos maus. A idéia de uma hierarquia de anjos já surgia (Clemente de Alexandria), mas não era considerado próprio prestar culto a anjo nenhum.

Com o passar do tempo, os anjos continuaram a ser considerados como espíritos bem-aventurados, superiores aos homens em conhecimento, e livres do embaraço de grosseiros corpos materiais. Conquanto alguns lhes atribuíssem excelentes corpos etéreos, houve crescente incerteza sobre se eles têm algum tipo de corpo. Os que ainda se apegavam à idéia de que são seres corpóreos faziam-no, parece, no interesse da verdade de que estão sujeitos a limitações espaciais. Dionísio Areopagita dividiu os anjos em três classes, a primeira consistindo de tronos, querubins e serafins, a segunda de domínios e poderes, e a terceira de principados, arcanjos e anjos. Os da primeira classe eram descritos como gozando a mais estreita comunhão com Deus; os da segunda, como iluminados pelos primeiros; e os da terceira, como iluminados pelos segundos. Essa classificação foi adotada por diversos escritores posteriores. Agostinho dava ênfase ao fato de que os anjos bons, por sua obediência, foram recompensados com o dom da perseverança, dom que trouxe consigo a segurança de que eles jamais cairiam. Ainda se considerava o orgulho como a causa da queda de Satanás, mas a idéia de que os demais anjos caíram em conseqüência da sua cobiça das filhas dos homens, embora ainda defendida por alguns, foi desaparecendo aos poucos, sob a influência de uma exegese melhor de Gn 6.2. Atribuía-se aos anjos que não caíram uma influência benéfica, ao passo que se acreditava que os anjos decaídos corrompem os corações dos homens, estimulam a heresia e geram moléstias e calamidades. As tendências politeístas de muitos dos convertidos ao cristianismo fomentavam uma inclinação para dar culto aos anjos. Esta prática foi condenada formalmente por um concílio reunido em Laodicéia no quarto século.

Durante a Idade Média ainda havia alguns que se inclinavam a admitir que os anjos têm corpos etéreos, mas a opinião predominante era de que são incorpóreos. As aparições angélicas eram explicadas com a admissão de que, em tais casos, os anjos adotavam formas corporais temporárias, para fins de revelação. Vários pontos estiveram em discussão entre os escolásticos. Quanto ao tempo em que os anjos foram criados, a opinião dominante era que foram criados no mesmo tempo da criação do universo material. Embora alguns sustentassem que os anjos foram criados no estado de graça, a opinião mais comum era que foram criados somente num estado de perfeição natural. Havia pouca diferença de opinião sobre se se pode dizer que os anjos ocupam um lugar. A resposta comum a esta questão era afirmativa, conquanto se assinalasse que a presença deles no espaço não é circunscritiva, mas definitiva, visto que somente os corpos podem estar circunscritivamente no espaço. Embora todos os escolásticos concordassem que o conhecimento dos anjos é limitado, os tomistas e os scotistas diferiam consideravelmente no concernente à natureza desse conhecimento. Todos admitiam que os anjos receberam conhecimento infuso quando de sua criação, mas Tomaz de Aquino negava, enquanto Duns Scotus afirmava, que eles podiam adquirir novo conhecimento através da sua atividade intelectual. O primeiro sustentava que o conhecimento dos anjos é puramente intuitivo, mas o último asseverava que esse conhecimento também pode ser discursivo. A idéia de anjo da guarda encontrou considerável apoio durante a Idade Média.

O período da Reforma não trouxe nada de novo, quanto à doutrina dos anjos. Tanto Lutero como Calvino tinham vívida concepção do ministério dos anjos, e particularmente da presença e poder de Satanás. Calvino acentuava o fato de que Satanás está debaixo do controle divino, e de que, embora seja às vezes instrumento de Deus, só pode agir dentro de limites prescritos. Os teólogos protestantes consideravam geralmente os anjos como seres espirituais puros, apesar de Zanchius e Grotius ainda falarem deles como possuidores de corpos etéreos. Quanto à obra realizada pelos anjos bons, a opinião geral era que sua tarefa especial consiste em atender aos herdeiros da salvação. Contudo, não havia acordo geral sobre a existência de anjos da guarda. Uns favoreciam este conceito, outros se opunham a ele, e ainda outros se recusavam a expressar-se sobre este ponto. A Confissão Belga diz, no Artigo XII, que trata da criação: “Ele criou também os anjos bons, para serem Seus mensageiros e servirem Seus eleitos, alguns dos quais caíram daquele estado de perfeição em que Deus os criara, para eterna perdição deles; e os outros, pela graça de Deus, permaneceram firmes e continuaram em seu primitivo estado. Os demônios e os maus espíritos são depravados que são inimigos de Deus e de todo bem, no máximo de sua capacidade, como assassinos que lutam pela ruína da igreja e de cada um dos seus membros, e pela destruição de todos, com os seus vis estratagemas; e, portanto, por sua iniqüidade, estão sentenciados à perdição eterna, em diária expectação dos seus horríveis tormentos”.

Até o presente, os católicos romanos geralmente consideravam os anjos como espíritos puros, enquanto que alguns protestantes, como Emmons, Ebrard, Kurtz, Delitzsch e outros, ainda lhes atribuíam algum tipo especial de corpo. Mas a grande maioria dos últimos tinha o conceito oposto. Swedenborg sustentava que todos os anjos eram originariamente homens e existem em forma corporal. Sua posição no mundo angélico depende de sua vida neste mundo. O racionalismo do século dezoito negava sem rebuços a existência dos anjos e explicava o que a Bíblia ensina a respeito deles como uma espécie de acomodação. Alguns teólogos liberais modernos consideram que vale a pena reter a idéia fundamental expressa na doutrina dos anjos. Eles vêem nela uma representação simbólica do cuidado protetor de Deus e de Sua disposição para dar ajuda e socorro.

A Existência dos Anjos

Todas as religiões reconhecem a existência de um mundo espiritual. Suas mitologias falam de deuses, semi-deuses, espíritos, demônios, gênios, heróis, e assim por diante. Foi especialmente entre os persas que a doutrina dos anjos se desenvolveu, e muitos críticos especialistas afirmam que os judeus derivaram a sua angelologia dos persas. Mas essa teoria não foi comprovada e, para dizer o mínimo, é muito duvidosa. Certamente não pode ser harmonizada com a Palavra de Deus, na qual os anjos aparecem desde o princípio. Além disso, alguns grandes especialistas, que fizeram estudos específicos do assunto, chegaram à conclusão de que a angelologia persa proveio da que era comum entre os hebreus. A igreja cristã sempre acreditou na existência dos anjos, mas a teologia liberal moderna descartou essa crença, embora ainda considere a idéia-anjo útil, visto que ela imprime em nós “o vívido poder de Deus na história da redenção, Sua providentia specialissima em favor do Seu povo, especialmente em favor dos ‘pequeninos’”. Embora homens como Leibnitz e Wolff, Kant e Schleiermacher, tenham admitido a possibilidade da existência do mundo angélico, e alguns deles tenham até mesmo tentando provar isso com uma argumentação racional, é evidente que a filosofia não pode provar nem a existência nem a inexistência dos anjos. Portanto, da filosofia passamos para a Escritura, que não faz nenhuma tentativa deliberada de provar a existência dos anjos, mas assume de capa a capa, e em seus livros históricos repetidamente nos mostra os anjos em ação. Ninguém que se incline diante da autoridade da palavra de Deus pode duvidar da existência dos anjos.

A Natureza dos Anjos.

1. DIFERENTEMENTE DE DEUS, OS ANJOS SÃO SERES CRIADOS. Às vezes tem sido negada a criação dos anjos, mas é ensinada com clareza na Escritura. Não é certo que as passagens que falam da criação do exército do céu (Gn 2.1; Sl 33.6; Ne 9,6) se referem à criação dos anjos, e não do exército de astros; mas Sl 148.2,5 e Cl 1.16 falam claramente da criação dos anjos (comp. 1 Rs 22.19; Sl 103.20,21). A ocasião em que foram criados não pode ser fixada definidamente. A opinião de alguns, baseada em Jó 38.7, de que foram criados antes de todas as outras coisas, realmente não tem o apoio da Escritura. Quanto sabemos, nenhuma obra criadora precedeu à criação dos céus e da terra. A passagem do Livro de Jó (38.7) na verdade ensina, com veia poética, que eles estavam presentes na fundação do mundo, como também as estrelas estavam, não, porém, que eles existiam antes da criação primária de céus e terra. A idéia de que a criação dos céus foi completada no primeiro dia, e que a criação dos anjos foi simplesmente uma parte da obra do dia, é também uma suposição não comprovada, embora o fato de que a declaração de Gn 1.2 só se aplica à terra pareça favorece-la. Possivelmente a criação dos céus não foi completada num só momento, como tampouco a da terra. Ao que parece, a única afirmação segura é que foram criados antes do sétimo dia. Pelo menos é o que se deduz de passagens como Gn 2.1; ex 20.11; Jó 38.7; Ne 9.6.

2. OS ANJOS SÃO SERES ESPIRITUAIS E INCORPÓREOS. Este ponto sempre foi debatido. Os judeus e muitos dos primeiros “pais da igreja” lhes atribuíam corpos tênues ou ígneos; mas a igreja da Idade Média chegou à conclusão de que são seres espirituais puros. Todavia, mesmo depois disso alguns teólogos católicos romanos, arminianos, e até mesmo luteranos e reformados (calvinistas), lhes atribuíram certa corporalidade, sumamente sutil e pura. Consideravam a idéia de uma natureza puramente espiritual e incorpórea metafisicamente inconcebível, bem como incompatível com a noção de criatura. Também recorriam ao fato de que os anjos estão sujeitos a limitações espaciais, movem-se de lugar a lugar, e às vezes eram vistos pelos homens. Mas todos estes argumentos são mais que neutralizados pelas explícitas afirmações da Escritura de que os anjos são pneumata, Mt 8.16; 12.45; Lc 7.21; 8.2; 11.26; At 19.12; Ef 6.12; Hb 1.14. Não têm carne e ossos, Lc 24.39, não se casam, Mt 22.30, podem estar presentes em grande número num espaço muito limitado, Lc 8.30, e são invisíveis, Cl 1.16. Passagens como Sl 104.4 (comp. Hb 1.7); Mt 22.30; e 1 Co 11.10 não provam a corporalidade dos anjos. Tampouco a provam as descrições simbólicas dos anjos na profecia de Ezequiel e no Livro de Apocalipse, nem os seus aparecimentos em formas corporais, embora seja difícil dizer se os corpos que eles assumiram em certas ocasiões eram reais ou apenas aparentes. É evidente, porém, que eles são criaturas e, portanto, limitados e finitos, apesar de terem mais livre relação com o espaço e o tempo do que o homem. Não podemos atribuir-lhes ubi definitivum (localização definida). Eles não podem estar em dois ou mais lugares simultaneamente.

3. SÃO SERES RACIONAIS, MORAIS E IMORTAIS. Quer dizer que são seres pessoais, dotados de inteligência e vontade. O fato de que são seres inteligentes parece inferir-se imediatamente do fato de que são espíritos; mas também a Bíblia ensina isso explicitamente, 2 Sm 14.20; Mt 24.36; Ef 3.10; 1 Pe 2.11. Embora não oniscientes, são superiores aos homens em conhecimento, Mt 24.36. Além disso, têm natureza moral e, nesta qualidade, estão sob obrigação moral; são recompensados pela obediência, e punidos pela desobediência. A Bíblia fala dos anjos que permaneceram leais como “santos anjos”, Mt 25.31; Mc 8.38; Lc 9.26; At 10.22; Ap 14.10, e retrata os que caíram como mentirosos e pecadores, Jo 8.44; 1 Jo 3.8-10. os anjos bons são também imortais, no sentido de que não estão sujeitos à morte. Quanto a isso se diz que os santos do céu são semelhantes a eles, Lc 20.35, 36. Em acréscimo a isso tudo, é-lhes atribuído grande poder. Eles formam o exército de Deus, uma hoste de heróis poderosos, sempre prontos a fazer o que o Senhor mandar, Sl 103.20; Cl 1.16; Ef 1.21; 3.10; Hb 1.14; e os anjos maus formam o exército de Satanás, empenhados em destruir a obra do Senhor, Lc 11.21; 2 Ts 2.9; 1 Pe 5.8.

4. HÁ ANJOS BONS E ANJOS MAUS. A Bíblia dá pouca informação a respeito do estado original dos anjos. Lemos, porém, que no fim de Sua obra criadora Deus viu tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Além disso, Jo 8.44; 2 Pe 2.4; Jd 6 pressupõe uma boa condição original de todos os anjos. Os anjos bons são chamados “anjos eleitos”, 1 Tm 5.21. Estes evidentemente receberam, além da graça de que foram dotados todos os anjos, graça suficiente para habita-los a manter a sua posição, uma graça especial, de perseverança, pela qual foram confirmados em sua condição. Tem havido muita especulação inútil acerca do tempo e do caráter da queda dos anjos. Contudo, a teologia protestante em geral contentou-se em saber que os anjos bons conservaram o seu estado original, foram confirmados em sua condição, e agora são incapazes de pecar. São chamados não somente santos anjos, mas também anjos de luz, 2 Co 11.14. Sempre contemplam a face de Deus, Mt 18.10, servem-nos de exemplos na prática da vontade de Deus, Mt 6.10, e têm vida imortal, Lc 20.36.

Número e organização dos Anjos.

1. SEU NÚMERO. A Bíblia não contém nenhuma informação definida sobre o número dos anjos, ma mostra com muita clareza que constituem um poderoso exército. São repetidamente mencionados como exército dos céus ou de Deus, e esta expressão só por si já indica um grande número. Em Dt 33.2 lemos que “O Senhor veio de Sinai... das miríades de santos”, e m Sl 68.17 o poeta canta, “Os carros de Deus são vinte mil, sim, milhares de milhares. No meio deles está o Senhor: o Sinai tornou-se em santuário”. À pergunta de Jesus, dirigida a um espírito imundo, a resposta foi: “Legião é o meu nome, porque somos muitos”, Mc 5.9, 15. Nem sempre as legiões romanas eram numericamente iguais, mas em diferentes ocasiões variavam de 3000 a 6000 legionários. Em Getsêmani Jesus disse a um discípulo que queria defende-lo dos que vieram prende-lo: “Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?”, Mt 26.53. E finalmente, lemos em Ap 5.11: “Vi, e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares”. Em vista desses dados todos, é perfeitamente seguro dizer que os anjos constituem uma imensurável companhia, um poderoso exército. Eles não formam um organismo como a humanidade, pois são espíritos que não se casam e não nascem uns dos outros. Seu número total e completo foi criado no princípio; não há mais aumento em suas fileiras.

2. SUAS ORDENS. Conquanto os anjos não constituam um organismo, evidentemente estão organizados de algum modo. Isto decorre do fato de que, ao lado do nome geral “anjo”, a Bíblia emprega certos nomes específicos para indicar diferentes classes de anjos. O nome “anjo”, com o qual designamos de maneira geral os espíritos superiores, não é um nomem naturae na Escritura, mas, sim, um nomem officii. A palavra hebraica mal’ak significa simplesmente mensageiro, e serve para designar alguém que é enviado por homens, Jó 1.14; 1 Sm 11.3, ou por Deus, Ag 1.13; Ml 2.7; 3.1. O termo grego angelos também é freqüentemente aplicado a homens, Mt 11.10; Mc 1.2; Lc 7.24; 9.51; Gl 4.14. Não há na Escritura um nome geral, especificamente distintivo, para todos os seres espirituais. Eles são chamados filhos de Deus, Jó 1.6; 2.1; Sl 29.1; 89.6, espíritos, Hb 1.14; santos, Sl 89.5, 7; Zc 14.5; Dn 4.13, 17, 24. Contudo, há diversos nomes específicos que indicam diferentes classes de anjos.
a. Querubins. A escritura menciona repetidamente os querubins. Eles guardam a entrada do paraíso, Gn 3.24, observam o propiciatório, Êx 25.18, 20; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16; Hb 9.5, e constituem a carruagem de que Deus se serve para descer à terra, 2 Sm 22.11; Sl 18.10. Em Ez 1 e Ap 4 são representados como seres vivos em várias formas. Estas representações simbólicas servem simplesmente para demonstrar o seu extraordinário poder e majestade. Mais que outras criaturas, eles foram destinados a revelar o poder, a majestade e a glória de Deus, e a defender a santidade de Deus no jardim do Éden, no tabernáculo, no templo e na descida de Deus à terra.
b. Serafins. Os serafins constituem uma classe de anjos proximamente relacionada com a anterior. São mencionados somente em Is 6.2,6. Também são representados simbolicamente em forma humana, mas com seis asas, duas cobrindo o rosto, duas os pés, e duas para a pronta execução das ordens do Senhor. Diferentemente dos querubins, permanecem como servidores em torno do trono do Rei celestial, cantam louvores a Ele e estão sempre prontos a fazer o que Ele manda. Enquanto que os querubins são os anjos poderosos, os serafins podem ser considerados os nobres entre os anjos. Ao passo que aqueles defendem a santidade de Deus, estes atendem ao propósito da reconciliação, e assim preparam os homens para aproximar-se apropriadamente de Deus.
c. Principados, potestades, tronos e domínios. Em acréscimo aos anteriores, a Bíblia fala de certas classes de anjos, que ocupam lugares de autoridade no mundo angélico, como archai e Exouxiai (principados e potestades), Ef 3.10; Cl 2.10, thronoi (tronos), Cl 1.16, kyreotetoi (domínios), Ef 1.21; Cl 1.16 (nesta passagem, traduzido por “soberanias”, Almeida. Autorizada), e dynameis (poderes), Ef 1.21; 1 Pe 3.22. Estes nomes não indicam diferentes espécies de anjos, mas diferenças de classe ou de dignidade entre eles.
d. Gabriel e Miguel. Diversamente de todos os outros anjos, estes dois são mencionados nominalmente. Gabriel * aparece em Dn 8.16; 9.21; Lc 1.19,26. A grande maioria dos comentadores o considera como um anjo criado, mas alguns deles negam que o nome Gabriel seja um nome próprio, vendo-o como um substantivo comum, com o sentido de homem de Deus – um sinônimo de anjo. Mas esta posição é insustentável. Alguns comentadores antigos e recentes vêem nele um ser incriado, alguns sugerindo até que ele poderia ser a terceira pessoa da Trindade Santa, sendo Miguel a segunda. Mas uma simples leitura das passagens em questão mostra a impossibilidade dessa interpretação. Gabriel pode ser um dos sete anjos dos quais se diz que se acham diante de Deus (Ap 8.2, Comp. Lc 1.19). Parece que sua função principal é servir de intermediário e intérprete de revelações divinas.
O nome Miguel (literalmente, “quem como Deus?”) tem sido interpretado como um designativo da segunda pessoa da Trindade. Mas isto não é mais sustentável que a identificação de Gabriel com o Espírito Santo. Miguel é mencionado em Dn 10.13, 21; Jd 9; Ap.12.7. Por ser chamado “o arcanjo” em Jd 9, e pela expressão utilizada em Ap 12.7, parece que ele ocupa um importante lugar entre os anjos. As passagens de Daniel também indicam o fato de que ele é um príncipe entre eles. Vemos nele o valente guerreiro a librar as batalhas de Jeová contra os inimigos de Israel e contra os poderes malignos do mundo dos espíritos. Não é impossível que o título de “arcanjo” também se aplique a Gabriel e a uns poucos anjos mais.

O serviço dos Anjos

Podemos distinguir entre o serviço comum e o serviço extraordinário dos anjos.
1. O SERVIÇO COMUM DOS ANJOS. Consiste primeiramente em seus louvores a Deus dia e noite, Jó 38.7; Is 6.3; Sl 103.20; 148.2; Ap. 5.11. A Escritura dá a impressão de que eles o fazem audivelmente, como no nascimento de Cristo, conquanto não possamos fazer idéia de como os anjos falam e cantam. Desde a entrada do pecado no mundo, eles são enviados para dar assistência aos herdeiros da salvação, Hb 1.14. Eles se regozijam com a conversão de um pecador, Lc 15.10, exercem protetora vigilância sobre os crentes, Sl 34.7; 91.11, protegem os pequeninos, Mt 18.10, estão presentes na igreja, 1 Co 11.10; 1 Tm 5.21, recebem aprendizagem das multiformes riquezas da graça de Deus, Ef 3.10; 1 Pe 1.12, e encaminham os crentes ao seio de Abraão, Lc 16.22. A idéia de que alguns deles servem de anjos da guarda de crentes individuais não tem apoio na escritura. A declaração de Mt 18.10 é geral demais, para provar o ponto, embora pareça indicar que há um grupo de anjos particularmente encarregado de cuidar das criancinhas. At 12.15 tampouco o prova, pois esta passagem mostra apenas que, naquele período primitivo, havia alguns, mesmo entre os discípulos, que acreditavam em anjos guardiões.
2. O SERVIÇO EXTRAORDINÁRIO DOS ANJOS. A queda do homem tornou necessário o serviço extraordinário dos anjos, e este constitui um importante elemento da revelação especial de Deus. Muitas vezes eles são intermediários das revelações especiais de Deus, comunicam bênçãos ao Seu povo e executam juízo sobre os Seus inimigos. Sua atividade é mais proeminente nos grandes pontos de transição da economia da salvação, como nos dias dos patriarcas, na época da entrega da lei, no período do cativeiro e da restauração, e no nascimento, na ressurreição e na ascensão do Senhor. Quando cessou o período da revelação especial de Deus, cessou o serviço extraordinário dos anjos, a ser retomado somente por ocasião da volta do senhor.

Os Anjos Maus.

1. SUA ORIGEM. Além dos anjos bons, há também os maus, cujo prazer esta em opor-se a Deus e combater Sua obra. Se bem que são criaturas de Deus, não foram criados como anjos maus. Deus viu tudo que tinha criado, e estava muito bom, Gn 1.31. Há duas passagens da Escritura que implicam claramente que alguns anjos não mantiveram a sua condição original, mas caíram do estado em que tinham sido criados, 2 Pe 2.4; Jd 6. O pecado específico desses anjos não foi revelado, mas geralmente se pensa que consiste em se exaltarem contra Deus e aspirarem à autoridade suprema. Se esta ambição desempenhou papel importante na vida de Satanás e o levou à queda, isso explica de vez por que ele tentou o homem nesse ponto particular, e procurou engodá-lo para destruí-lo recorrendo a uma possível ambição, parecida com sua, presente no homem. Alguns dos primeiros “pais da igreja” distinguiam entre Satanás e os demônios a ele subordinados, na explicação da causa da sua queda. Viam a explicação da queda de Satanás, no orgulho, mas a da queda mais geral ocorrida no mundo angélico, na luxúria carnal, Gn 6.2. Contudo, essa interpretação de Gn 6.2 foi sendo aos poucos repudiada, durante a Idade Media. Em vista disto, é surpreendente ver que alguns comentadores modernos reiteram aquela idéia, em sua interpretação de 2 Pe 2.4 e Jd 6, como o fazem, por exemplo, Meyer, Alford, Mayor e Wohlenberg. É, todavia, uma contraria à natureza espiritual dos anjos e ao fato de que, como Mt 22.30 parece implicar, não há vida sexual entre os anjos. Alem disso, com essa interpretação teríamos que admitir uma queda dupla no mundo angélico – primeiro a queda de Satanás e, depois, consideravelmente mais tarde, a que resultou no exército de demônios que agora presta serviço a Satanás. É muito mais provável que Satanás tenha arrastado os outros logo consigo, em sua queda.
2. SEU CHEFE. Satanás aparece na Escritura como o reconhecido chefe dos anjos decaídos. Ao que parece, ele era originariamente um dos poderosos príncipes do mundo angélico, e veio a ser o líder dos que se revoltaram contra Deus e caíram. O nome “Satanás” revela-o como “o Adversário”, não do homem em primeiro lugar, mas de Deus. Ele investe contra Adão como o coroa da produção de Deus, forja a destruição, razão pela qual é chamado Apoliom (destruidor), Ap 9.11, e ataca Jesus, quando Ele empreende a obra de restauração. Depois da entrada do pecado no mundo, ele se tornou Diabolos (Acusador), acusando continuadamente o povo de Deus, Ap 12.10. Ele é apresentado na Escritura como o originador do pecado, Gn 3.1,4; Jo 8.44; 2 Co 11.3; 1 Jo 3.8; Ap 12.9; 20.2, 10, e aparece como o reconhecido chefe dos que caíram, Mt 25.41; 9.34; Ef 2.2. Ele continua sendo o líder das hostes angelicais que arrastou consigo em sua queda, e as emprega numa desesperada resistência a Cristo e ao Seu reino. É também chamado repetidamente “príncipe deste mundo” (não “do mundo”*), Jo 12.31; 14.30; 16.11, e até mesmo “Deus deste século”, 2 Co 4.4. Não significa que ele detém o controle do mundo, pois Deus é que o detém, e Ele deu toda a autoridade a Cristo, mas o sentido é que Satanás tem sob controle este mundo mau, o mundo naquilo em que está separado de Deus. Isso está claramente indicado em Ef 2.2, onde ele é chamado “príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência”. Ele é super-humano, mas não é divino; tem grande poder, mas não é onipotente; exerce influencia em grande escala, mas restrita, Mt 12.29; Ap 20.2, e está destinado a ser lançado no abismo, Ap 20.10.
3. SUA ATIVIDADE. Como os anjos bons, os anjos maus também possuem poder sobre-humano, mas o uso que dele fazem contrata-se tristemente com os dos anjos bons. Enquanto estes louvam a Deus perenemente, libram Suas batalhas e O servem com fidelidade, aqueles, como poderes das trevas, prestam-se para maldizer a Deus, pelejar contra Ele e Seu Ungido, e destruir a Sua obra. Então em constante rebelião contra Deus, procuram cegar e desviar até os eleitos, e animam os pecadores no mal que estes praticam. Mas são espíritos perdidos e sem esperança. Agora mesmo estão acorrentados ao inferno e a abismo de trevas e, embora não estejam ainda limitados a um lugar só, no dizer de Calvino, contudo, arrastam consigo as suas cadeias por onde vão, 2 Pe 2.4; Jd 6.