English French German Spain Italian


Nietzche:
Transvalorizando
a Ética


Kierkegaard acreditava que o ético deve ser transcendido pelo religioso Nietzsche acreditava que o religioso e o ético devem ser transvalorizados.Conforme indica o título de um dos seus livros o homem moderno deve ir "além do Bem e do Mal." Deus morreu, e todos os valores teístas morreram com Ele. O homem moderno deve achar novos valores à parte destes valores tradicionais defuntos.
A Morte de Deus e do Bem

Numa passagem famosa em Sabedoria Alegre, Nietzsche escreve acerca do homem moderno: " 'Para onde foi Deus? exclamou. Pretendo contar-lhe! Nós o matamos, — você e eu! Nós todos somos seus assassinos!... Não ouvimos o som dos coveiros que estão enterrando a Deus? Não cheiramos a putrefação divina? — porque até os Deuses apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E nós O matamos!" No seu bem-conhecido livro: Assim Falou Zaratustra, Nietzsche exortou: "Rogo-vos, meus irmãos, permanecei fiéis à terra, e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças noutros mundos!. .. Anteriormente, o pecado contra Deus era o maior pecado; mas Deus morreu, e estes pecadores morreram com Ele. Pecar contra a terra agora é a coisa mais horrorosa.. , Se Nietzsche queria dizer que um Deus que certa vez realmente vivia agora realmente morrera (conforme acredita Thomas Altizer), ou se queria dizer que Deus morrera culturalmente sendo que o homem moderno já não crê nEle, ou seja o que for; o resultado ético final é o mesmo: viz., Deus e todos os valores tradicionais caíram.

Nietzsche denominava a si mesmo de "o primeiro imoralista" que desejava passar além de toda a moralidade tradicional assim como a química passou além da alquimia, e a astronomia além da astrologia. Até mesmo princípios éticos muito gerais, tais como: "Não fira homem algum, pelo contrário, ajude a todos os homens na medida da sua capacidade," são questionados por Nietzsche. "Em resumo: os deveres morais também são apenas uma linguagem simbólica das paixões... "A moralidade cristã do amor altruísta é selecionada para um ataque especial por Nietzsche. "O que? Alega-se que um ato de amor é 'não-egoísta'? Ora, seus idiotas... 'O que se diz de louvar aquele que sacrifica a si mesmo?" Porque "cada moralidade altruísta que se toma por absoluta e procura aplicar-se a todos, peca não somente contra o bom gosto, mas faz algo pior: é um incentivo aos pecados da omissão." Realmente, Nietzsche reserva suas palavras mais amargas para a ética cristã. Em Ecce Homo escreveu: "A moralidade cristã é a forma mais maligna de toda a falsidade.. . É realmente venenosa, decadente, debilitante. Produz simplórios, e não homens." Acrescenta noutro trecho: "Condeno o cristianismo e o confronto com a mais terrível acusação que um acusador já teve na sua boca. Na minha opinião é a maior corrupção da qual se pode conceber. .. Chamo-o de a única mancha imortal da raça humana."

Reavaliando o Bem e o Mal

A acusação principal de Nietzsche contra a ética cristã é que é uma moralidade de fraqueza. "Desde o próprio início, a fé cristã é um sacrifício: o sacrifício de toda a liberdade, de todo orgulho, de toda a auto-confiança da mente; ao mesmo tempo, é servidão, zombaria de si mesmo e auto-mutilação." Segundo Nietzsche: " Torne-se medíocre!' agora é a única moralidade que faz sentido, que acha ouvidos para ouvir." E no centro desta moralidade da mediocridade há o conceito cristão do amor. " 'A compaixão para todos' importaria em rigor e tirania para você, meu caro vizinho!" exclama ele. Além disto, diz: "amar a humanidade por amor a Deus tem sido, até agora, o sentimento mais distinto e forçado que a humanidade tem galgado."

Esta ética do amor, conforme é personificada na vida de Cristo, é "um dos exemplos mais dolorosos do martírio que advém de conhecer acerca do amor." É o fim trágico de uma ética da fraqueza inspirada pelo amor, que tem urgente necessidade de transvalorização. "Jesus disse para seus judeus," escreveu Nietzsche, "Amem a Deus, conforme eu o amo, amem-no como um filho ama. O que é que nós, os filhos de Deus, nos importamos com a moralidade?" Deus está morto, Jesus está morto, e a moralidade cristã está morta. "Talvez um dia os conceitos morais acerca dos quais mais lutávamos e sofríamos, os conceitos de 'Deus' e do 'pecado' não nos parecerão mais importantes do que o brinquedo da criança ou a tristeza da criança parece a um velho."

O que é necessário hoje, diz Nietzsche, é uma nova moralidade, não dos fracos, mas dos fortes. A velha moralidade morreu; uma nova moralidade deve ser elaborada. A moralidade tradicional é edificada sobre a obediência dos muitos aos poucos, e produziu virtudes "moles." É uma moralidade do rebanho. O que é necessário hoje é uma moralidade do indivíduo e das virtudes "duras", tais como as qualidades próprias do guerreiro: a perseverança, a aspereza, e a suspeita. Esta moralidade do "super-homem" também incluirá a inteligência, a honestidade, e a generosidade que dá, não por compaixão, mas, sim, de uma super-abundância de poder. Mas seu alvo não é a uniformidade da moralidade para todos os homens, mas, sim, uma variedade de moralidades. Porque "a exigência de uma só moralidade para todos importa numa invasão do tipo superior de homem." Há uma ordem de categoria entre os homens, e deve havê-la também entre as moralidades.

De onde vem esta nova moralidade? De gênios criadores, pois "os verdadeiros filósofos são mandantes e legisladores. Dizem: 'Será assim!' Determinam o 'para onde' e o 'com que fim' da humanidade... O 'saber' deles é criador." Talvez seja necessário que o filósofo genuíno tenha sido um crítico, um dogmático, um cético, e um historiador. "Todas estas, porém, são apenas condições prévias para sua tarefa. A tareia propriamente dita é outra coisa: exige que ele crie valores. " Nietzsche não está interessado na descoberta do valor mas, sim, na sua criação, os super-homens são os criadores. A "vontade de poder" do supei-indivíduo substitui a vontade do santo de ser sobrepujado pelos outros. Todos os valores do grupo são transformados em valores individuais, todos os absolutos em relativos, toda a moralidade em extra-moralidade. Qualquer coisa que aumenta a vontade de poder é valiosa. O bem moral é achado na afirmação da vontade, e é fortalecido pelo ideal dos super-homens.

De que maneira se deve abordar a ética, portanto, se todo o valor é relativo à vontade individual ao poder? A resposta é, numa só palavra: a experimentação. Mas este estudo de sentimentos de valores e diferenças de valores mediante a experimentação não deve ser dirigido para estabelecer uma ciência da moralidade mas, sim, apenas para preparar uma tipologia. "Pelo nome com que me aventurei a batizá-las, expressamente enfatizei sua experimentação e seu deleite na experimentação," escreveu Nietzsche. E "na sua paixão por novo entendimento, não devemos ir mais longe em experiências ousadas e dolorosas do que o gosto emasculado e mórbido de um século democrático possa aprovar?
Mas o que freará esta ética individualista ao poder da anarquia e do caos? A resposta de Nietzsche é: a eterna reocorrência voluntária. O super-homem aceita o fato final de uma volta perpétua ao mesmo estado de coisas. Os ciclos eternos afugentarão a insinceridade daqueles que aceitarem esta nova moralidade.

A Rejeição de Todo o Valor Absoluto

Não somente Nietzsche procurava rejeitar todo o valor tradicional e desejava reavaliá-lo mediante a recriação dos valores radicais do individualista robusto, como também rejeitava enfaticamente todos os valores absolutos de modo total. "Repetirei uma centena de vezes," escreveu ele, "que a 'certeza imediata' bem como o 'conhecimento absoluto' e a 'coisa em si mesma' são todas contradições em termos." Tanto a verdade como o valor estão numa escala deslizante sem qualquer padrão absoluto. "O que nos força." Nietzsche pergunta, "a pressupor dalgum modo que haja uma diferença essencial entre 'verdadeiro' e 'falso'? Não é suficiente supor níveis de semelhança, sombras e tons mais claros e escuros de semelhança, por assim dizer, "valores' diferentes, do modo que o pintor usa o termo?"

O filósofo da verdade absoluta está predisposto pela pressuposição de que existam opostos tais como verdadeiro e falso, bom e mau. "A fé básica de todos os metafísicos é a fé na natureza antitética dos valores. " "Nunca lhes ocorre duvidar desta pressuposição," diz Nietzsche. "Mas realmente podemos duvidar: primeiramente, se as antíteses realmente existem, e, em segundo lugar, se aquelas avaliações populares e antitéticas de valores às quais os metafísicos deram seu carimbo de aprovação não são, talvez, avaliações meramente superficiais. . " E a crença metafísica básica de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina, decerto deve ser questionada. "Mas o que se diz se isto em si mesmo torna-se menos fidedigno," pergunta Nietzsche, "o que se diz se mais nada se comprova divino, a não ser que seja o erro, a cegueira e a falsidade; o que se diz se o próprio Deus é revelado como sendo nossa mentira mais persistente?" De fato, a totalidade do livro de Nietzsche, Anti-Christ é dedicado à destruição da verdade absoluta. Era apenas a primeira parte de uma magnum opus projetada (nunca completada) que ele chamou de A Revaluation of All Values.

Resumindo: Nietzsche procura ir além do bem e do mal por meio de transvalorizar a própria natureza do bem e do mal. Nas suas próprias palavras, fá-lo "numa reavaliação de todos os valores, numa libertação de todos os valores morais, ao falar Sim a tudo quanto até então tem sido proibido, desprezado, condenado; e ter confiança nele.. . A moralidade não é atacada, meramente já não faz parte do quadro." Em resumo: Nietzsche está sem normas éticas relevantes de várias maneiras: Primeiramente, está sem quaisquer normas absolutas. Deus está morto e todos os valores absolutos morreram com Ele. Em segundo lugar, Nietzsche está sem normas objetivas. Cada indivíduo cria sua própria variedade de valores. Em terceiro lugar, está sem normas cristãs. Nietzsche é profunda e irrevogavelmente anti-cristão. O próprio Nietzsche, temendo que alguém um dia o canonizaria (conforme fez Altizer), escreveu: "Tenho um medo tremendo de que, um dia, alguém me pronunciará santo. " Dificilmente era santo no sentido cristão, certamente não no seu conceito de Deus e dos valores morais edificados em Deus. Encarava "Deus como a declaração de guerra contra a vida, contra a natureza, contra a vontade de viver! Deus — a fórmula para toda calúnia contra 'este mundo' para toda mentira acerca do 'além'! Deus — a deificação do nada, a vontade de nada pronunciada santa!"