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Proposta para uma boa Exegese


Com exceção de uns poucos documentos bíblicos bem curtos, que podem ser tomados na íntegra, todo estudo exegético pressupõe uma delimitação do texto. Muitas vezes, especialmente quando se trata de exegese feita num contexto eclesiástico, o texto é uma leitura escolhida para o culto. Convém observar onde começa e onde termina a seleção de versículos .
Nem sempre a divisão de capítulos e versículos respeita a progressão do pensamento ou a noção moderna de parágrafos. Aliás, essa divisão em capítulos e versículos, que é muito útil para localizar passagens, não pode ser usada para delimitar unidades de sentido, e não raras vezes leva a uma fragmentação indevida dos textos . Existem divisões de capítulos e versículos mal feitas, como é o caso de Is 53.1 (o texto começa, a rigor, em Is 52.13), ICo 13.1 (o texto começa em 12.31b), e ICo 14.33b (um novo assunto começa na metade do versículo).
Junto com a delimitação do texto pode vir o exame dos títulos de seção, adicionados pelos editores do texto bíblico. Esses títulos podem ser adequados, como podem também induzir o leitor a ignorar um aspecto importante da seção. Em todo caso, dão uma idéia do assunto de cada seção e por vezes trazem títulos sugestivos e até criativos.
Nesse primeiro contato com o texto, o leitor talvez queira dar ouvidos à "tonalidade" do mesmo. Em outras palavras, poderia perguntar que música escolheria como fundo para o texto.

Determinação do gênero

Os principais gêneros bíblicos são o narrativo (ou histórico),o poético (salmos e provérbios) e o argumentativo (epístolas). Talvez o mais importante seja distinguir entre o gênero poético, eivado de linguagem figurada, e os demais gêneros.
Também é possível fazer o destaque daquilo que é inusitado. Por exemplo, um salmo em Crônicas (1Cr 16), história num livro profético (Is 36 a 39), uma epístola em Atos (At 15), um hino numa epístola (Fp 2), etc.

Crítica textual

A edição crítica do texto hebraico ou grego registra alguma variante textual? Por que teria surgido a variante, ou, então, o que incomodou os copistas a ponto de introduzirem uma variante? Que diferença faz a variante? O intérprete nem sempre terá o preparo para argumentar ou, talvez, convencer os editores do texto original de que fizeram a escolha errada (isto é, que a variante deveria ser texto), mas precisa entender o processo de avaliação das variantes e o que levou os editores a fazerem a escolha que fizeram .

O exame do aparato crítico traz uma outra vantagem: coloca o intérprete de hoje em contato com os intérpretes do passado. A maioria das variantes tem pouca chance de desbancar o texto impresso como o texto original. Mas, na medida em que são explicações ou simplificações do texto, já ajudam na exegese. Além de chamar a atenção para o fato de se tratar de um texto difícil - o que explica o surgimento da variante - a própria variante faz parte da história da interpretação do texto. Um exegeta afirmou certa vez que, no seu caso, o texto estava entendido tão logo ele terminava a análise do aparato crítico. Todas as explicações necessárias estavam lá.

Semântica

Aqui cabe verificar se o significado de todos os termos é conhecido. Para quem trabalha com o texto de Almeida, existe o Dicionário da Bíblia de Almeida. Nada se compara, no entanto, ao estudo do texto no original. Também aqui se aplica aquele ditado: "Leia sempre as fontes; delas tudo flui de modo natural".
Para muitos, ler o texto no original é trabalho penoso e demorado. Só que vale à pena, e tem suas vantagens. Como desacelera o processo, possibilita uma leitura vertical ou aprofundada, que se contrapõe à leitura extensa, superficial, pouco profunda. Possibilita fazer o que recomendava J. A. Bengel: "Leia a palavra de Deus como se fosse a primeira e a última vez".

Sintaxe

É preciso de todas as formas evitar a fragmentação do texto, que parece pressupor que o mesmo não passa de uma seqüência de vocábulos isolados. Neste passo, o intérprete procura entender como os diferentes termos se relacionam dentro do texto (coordenação e subordinação).
O intérprete precisa tentar entender a progressão lógica ou a seqüência do texto. Pode investigar o "movimento" do texto. Este pode ser visual, apresentando uma série de cenas. Pode ser narrativo, trazendo um pequeno enredo, com começo, meio e fim ou, então, conflito, complicação e resolução. Pode ainda ser argumentativo, feito de uma série de teses, com provas, etc.
Dessas observações resulta um esquema ou esboço. E alguém já disse, certa vez, falando a pregadores: "Dificilmente vocês conseguirão melhorar o esboço do Espírito Santo, embutido no próprio texto".

Traduções

Toda tradução é uma interpretação do original. Traduções refletem o original e, muito antes de serem um problema, são uma bênção, pois, tomando todas em conjunto, o intérprete chegará mais perto do original, caso não tiver ele próprio acesso ao mesmo. Este já era o parecer de Agostinho:
A diversidade de traduções, contudo, tem sido mais ajuda do que obstáculo à compreensão do texto, isso ao se tratar de leitores não negligentes. (...) Pois é difícil que os tradutores se diferenciem entre Si a ponto de não se aproximarem por alguma semelhança. (A doutrina cristã, 11, cap. XI.17, pp.101-102)
Num certo sentido, exegese é tradução, isto é, o esforço por traduzir o texto original para uma linguagem compreensível hoje. Um estudo exegético é, portanto, um ensaio de tradução. Uma tradução pessoal do texto é um resumo desse estudo.

Co-texto ou contexto literário

O co-texto ou contexto literário é aquilo que vem antes e depois do texto em estudo. Depois da atenção ao texto em Si, este é o princípio fundamental da exegese, pois, se a exegese termina mal, normalmente isto se deve à desconsideração do contexto literário. Um texto isolado, tirado do contexto, é um texto vulnerável, sem proteção. Exemplos de textos que adquirem um sentido um tanto diferente, fora de seus contextos, são ICo 2.9; ICo 3.16; Fp 4.13; IPe 5.8 .
Por mais que se destaque um texto, ele nunca deixa de ser parte de um todo maior. Neste sentido, não se deveria levar o termo perícope, que sugere um recorte, ao pé da letra . A analogia mais apropriada é a de uma toalha que é puxada ou erguida por alguém: a parte em que a pessoa pega é a que fica mais saliente, mas o resto da toalha vem junto.
Ainda em termos de co-texto, dado o efeito cumulativo de textos, o que vem antes (co-texto anterior) tende a ser mais importante do que aquilo que vem depois (co-texto posterior).

Contexto histórico

Estudar o contexto histórico pode ser um processo tão amplo e complicado quanto estudar toda a história bíblica, mas pode também ser delimitado ao que aparece no texto ou é sugerido por ele. Aqui, o intérprete pode investigar aspectos da história, geografia e cultura bíblicas. Também pode, na medida do possível, determinar por que o texto foi escrito e como teria sido entendido pelos primeiros leitores. Quem escreveu, quando e para quem também podem ser questões importantes.
Um exemplo da importância disso é o aparente conflito entre Paulo e Tiago no que diz respeito a fé e obras. A diferença de situação ou contexto, para não falar do uso das mesmas palavras com significados um tanto quanto diferentes, ajuda a explicar essa aparente divergência .
Para dar conta deste passo do método exegético, são valiosas as introduções aos livros bíblicos em Bíblias de Estudo, livros de introdução à Bíblia, dicionários bíblicos, e comentários bíblicos. Em muitos casos, a melhor introdução a um livro bíblico é aquela que aparece no início de um comentário àquele livro, especialmente comentários mais eruditos.
Muitas das informações contidas nesses materiais são reconstruções feitas a partir daquilo que o próprio texto bíblico diz. Há nisto uma boa dose de argumentação circular, ou seja, o intérprete se vale do texto para reconstruir a situação histórica, e, a partir dessa reconstrução, procura entender o texto. Em outras palavras, essas reconstruções são em boa parte hipotéticas, e não podem ser nem provadas nem desmentidas . Mesmo assim, essas informações, especialmente aquelas que são extraídas do próprio texto bíblico, têm o seu valor. Trata-se, de certa forma, da aplicação do princípio de "explicar a Bíblia pela própria Bíblia".

Contexto teológico

O contexto teológico é o contexto conceituai de toda a Bíblia. Em outras palavras, ao voltar-se para este tópico, o leitor fica atento aos grandes temas bíblicos que eventualmente aparecem no texto, a saber, salvação, justiça, ira, fé, amor, etc. Esses temas podem ser estudados a partir de uma Chave Bíblica ou Concordância. Os dicionários teológicos também ajudam. Também é possível estabelecer conexões entre o texto em estudo e outros versículos da Bíblia. As passagens paralelas, que aparecem listadas abaixo dos títulos em muitas edições da Bíblia, e também as letrinhas em sobrescrito, que remetem a referências cruzadas listadas ao pé da página, facilitam o trabalho de estabelecer essas conexões. Para o Novo Testamento, o melhor recurso no que diz respeito a referências cruzadas é a edição grega de Nestle-Aland, para não falar das concordâncias gregas .
A Bíblia se explica sozinha, desde que o exegeta queira ouvir as explicações que ela tem a dar. E ela se explica principalmente a partir dos paralelos e das referências cruzadas, que, em geral, são paralelos de semelhança. Às vezes o paralelo complementa a passagem que se está estudando. Mais raramente se indica uma que contrasta com o texto em estudo.