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OS QUATRO "PENTECOSTES"
(R.C.Sproul)


Na Igreja primitiva, a questão da plena inclusão no corpo de Cristo não se limitava meramente aos dois grupos genéricos de judeus e gentios. Havia quatro grupos distintos de pessoas cuja situação na Igreja estava em jogo. Esses quatro grupos incluíam: os judeus, os Samaritanos, os tementes a Deus e os gentios. Os tementes a Deus eram convertidos gentios ao judaísmo, que tinham abraçado as doutrinas do judaísmo, mas que tinham parado em meio à sua conversão ao judaísmo por optarem por permanecer incircuncisos. É claro, no capítulo décimo do livro de Atos, que Cornélio era um temente a Deus.
Morava em Cesaréia um homem, de nome Cornélio, centurião da coorte chamada a italiana, piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus (Atos 10.1,2).

É espantoso que os quatro derramamentos do Espírito, no estilo pentecostal, registrados no livro de Atos, cobriam precisamente os quatro grupos cuja posição na Igreja primitiva estava em dúvida. Os judeus receberam o Espírito Santo no dia de Pentecoste. Os Samaritanos receberam o Espírito durante o ministério de Filipe, Pedro e João (Atos 8). Os tementes a Deus receberam o Espírito Santo na casa de Cornélio (Atos 10). E, finalmente, houve um derramamento do Espírito sobre os gentios de Éfeso (Atos 19). Todos os quatro grupos, e todos os participantes de todos os grupos receberam o derramamento do Espírito Santo.

Permanece de pé a indagação: Qual é a significação desses eventos? O neopentecostismo encontra a significação no prazo de tempo entre a conversão e o recebimento do Espírito e nas manifestações externas das línguas.
Mas essa não é a grande significação desses eventos salientados por Lucas. Essa não é a principal mensagem que os próprios apóstolos adquiriram desses acontecimentos.
Como foi que os apóstolos interpretaram essas ocorrências? A chave encontra-se no capítulo dez do livro de Atos:

Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo; pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então perguntou Pedro: Porventura pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados, estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo ? E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias (Atos 10.44-48).

O texto indica que os crentes judeus ficaram chocados quando viram os crentes gentios receberem o Espírito Santo. O sentido claro para isso, para Pedro, foi que aqueles convertidos gentios deveriam ser recebidos como membros plenos na Igreja cristã. "Porventura pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados, estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?" foi a pergunta desse apóstolo. E ordenou que fossem batizados. Aqui rebrilha o grande tema de Lucas de que todos os crentes fazem parte integral da Igreja do Novo Testamento. Não haveria cidadãos de segunda classe no reino de Deus. Judeus, Samaritanos, tementes a Deus e gentios, todos receberam o batismo do Espírito Santo.

O que há de normativo no Pentecoste é que o Espírito Santo batiza todo o povo de Deus. Que havia uma demora quanto ao tempo, no livro de Atos, entre a conversão e o batismo, não estabelece esse aspecto como uma norma. Havia claras razões histórico-remidoras para que ocorressem esses quatro "Pentecostes" distintivos. Eles demonstraram claramente a igualdade de todos os quatro grupos na Igreja. Nada existe no texto indicando que esse intervalo entre as duas ocorrências — a conversão e o batismo no Espírito — seja a norma. No capítulo dezenove de Atos, Paulo perguntou aos crentes de Éfeso: "Recebestes, porventura, o Espírito Santo, quando crestes?" (Atos 19.2)

Ao fazer essa pergunta, Paulo aparentemente supunha a possibilidade que os crentes em Éfeso tivesse recebido a experiência pentecostal no tempo de sua conversão, indicando que, pelo menos nesse ponto, ele não tinha nenhum conceito de uma demora que fosse a norma. Ele admitiu a possibilidade de demora, mas não como regra.
Que dizer sobre as línguas como uma evidência necessária do batismo com o Espírito Santo?
É claro, pelos textos do livro de Atos, que o dom do falar em línguas realmente funcionava como um sinal externo do enchimento com o Espírito. As línguas proviam uma indicação tangível de que o Espírito havia caído sobre os indivíduos assim que romperam as expressões extáticas de Eldade e Medade, no capítulo onze de Números. No caso de Jesus, porém, por ocasião de sua unção, houve a visão externa do Espírito que descia como uma pomba (ver Mateus 3.16). (O relato do batismo de Jesus é a base para se usar a pomba como símbolo do Espírito Santo. A pomba, que também se tornara símbolo da paz
— com base no relato sobre a pomba, na história de Noé
— não é um mau símbolo para o Espírito, mas por certo não transmite muito bem o conceito de poder. O vento que soprava com ímpeto é um símbolo muito melhor, e por certo o vento e o Espírito têm muitas conexões bíblicas. O fogo, conforme fica demonstrado na narrativa do Pentecoste, também é um símbolo apropriado, mas, tal como o vento e a pomba, não transmite a idéia de personalidade. É lamentável que, em um nível visual, na realidade não existem símbolos apropriados para o Espírito). Por ocasião do Pentecoste, houve um sinal visível, tal e qual como houve um sinal auditivo, a saber, a visão das línguas como que de fogo, que se assentaram sobre as cabeças de cada crente.

Embora esses sinais visíveis tenham ocorrido aqui e ali, também é claro que não eram considerados como indicadores necessários ou normativos do enchimento com o Espírito. Embora o falar em línguas tenha continuado a manifestar-se na vida da Igreja, o que é testificado pela discussão de Paulo sobre a questão, na primeira epístola aos Coríntios, é claro que, pelo tempo em que essa epístola foi escrita, o falar em línguas não era considerado como um sinal indispensável do presente carismático.

Em 1 Coríntios, Paulo labora o ponto que embora as línguas sejam um dom de Deus e, portanto, são aproveitáveis, elas não recebem uma posição exaltada demais na Igreja. Paulo declara a sua preferência como segue:

Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua (1 Coríntios 14.18,19).

A taxa do apóstolo aqui é 5:10.000. Paulo levanta em outro lugar uma pergunta: "Falam todos em outras línguas?" (1 Coríntios 12.30b) Nenhuma resposta é dada aqui explicitamente. Entretanto, não há dúvida sobre a resposta. A pergunta formulada por Paulo não pode ser respondida, de modo indiferente, com um "sim" ou com um "não". Só pode haver uma resposta para esse tipo de pergunta estruturada. E a resposta é "não".

Na igreja em Corinto os dons do Espírito eram altamente evidentes e operativos. No entanto, Paulo novamente laborou o ponto ao dizer que o Espírito Santo dota o seu povo com uma diversidade de dons.
Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente (1 Coríntios 12.4-11).

Soberanamente, o Espírito distribui dons à sua Igreja. A Igreja é um corpo de membros dotados por Deus, que funciona dentro do arcabouço da unidade e da diversidade. Nenhum ofício ou dom deve ser elevado ao nível de um sinal exclusivo da manifestação do Espírito.
Paulo disse ainda:

Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito (1 Coríntios 12.13),

Dale Bruner comentou sobre a passagem acima como segue:

Se este versículo for interpretado como que falando de um segundo e separado batismo no Espírito Santo, além do batismo em Cristo, e somente para alguns crentes, então é feita uma violência não somente contra as palavras do texto — "todos... todos " — mas também contra o propó¬sito do texto, em seu contexto na epístola aos Coríntios. Em 1 Coríntios 12.13, Paulo não está ensinando sobre um batismo universal que é ganho apenas por alguns mas está ensinando sobre o gracioso batismo cristão através do Espírito, dado a todos (Frederick Dale Bruner, A Theology of the Holy Spirit, Grand Rapids: Eerdemans, 1970, pág. 292).

O peso da interpretação bíblica sobre o sentido do Pentecoste milita contra a compreensão neopentecostal do batismo do Espírito Santo. Todos aqueles a quem o Espírito regenera, ele também batiza, enche e dota com o poder para o ministério.
Essa é a notícia animadora do Pentecoste. No plano divino da redenção, o Espírito Santo tem dotado todo crente para o ministério. A Igreja cristã, em sua inteireza, tem sido dotada do alto. Não existem dois níveis de crentes — dotados e não-dotados, batizados no Espírito e não batizados no Espírito (Muitos carismáticos e pentecostais enfatizam outros dons do Espírito — curas, profecias, liderança, hospitalidade, discernimento, exortação, interpretação, etc. É uma infelicidade que, nas mentes de muitos crentes, o falar em línguas passou a ser visto como a evidência do batismo do Espírito).

Ouvimos testemunhos abundantes, da parte de crentes modernos, os quais declaram que sua experiência de batismo no Espírito e no falar em línguas mudou dramaticamente as suas vidas espirituais. Eles agora têm maior zelo, maior ousadia, maior empenho na oração. Também tem sido dito que um homem com uma experiência nunca está à mercê de um homem que só tem um argumento.

Não tenho querela alguma com as experiências das pessoas com o Espírito Santo. Estou deleitado em ouvir sobre o aumento da fé, sobre o zelo, sobre a intensidade na oração e sobre o resto. Minha preocupação não é com o significado da experiência, mas com a compreensão do significado da experiência. É a interpretação sobre a ex¬periência que tende voltar-se contra as Escrituras. Nossa autoridade não são as nossas experiências e, sim, a Palavra de Deus. As pessoas na Igreja não têm todas uma mesma experiência com o Espírito Santo, mas isso não indica que todos eles não tenham o mesmo Espírito. Essa é a questão mesma que tão profundamente perturbou a igreja em Corinto.

Não estou dizendo, por igual modo, que todo aquele que é membro de uma igreja cristã tenha o Espírito Santo. Ser membro em uma igreja visível não é mais garantia de que uma pessoa tem o batismo do Espírito San¬to, do que uma pessoa tem garantida a sua salvação. Sabemos que existem incrédulos que são membros de igrejas. Nenhum incrédulo tem o batismo do Espírito Santo, mas todo crente, toda pessoa regenerada, tem o batismo do Espírito Santo. Todo crente, desde o Pentecoste até o presente, tanto é uma pessoa regenerada pelo Espírito quanto é batizada pela Espírito. Essa é a essência do sentido do Pentecoste. Qualquer coisa menos do que isso lança uma sombra sobre a importância sagrada do Pentecoste na história da redenção. Qualquer pessoa que tenha sido regenerada pelo Espírito, também foi batizada no Espírito e tem o selo do Espírito.