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UM VERDADEIRO CRENTE PODE CAIR DA GRAÇA?
UMA ANÁLISE DE HEBREUS CAPÍTULO 6

(Warren Wiersbe)


Nenhum capítulo da bíblia tem perturbado tanto as más pessoas que Hebreus capítulo 6. Até crentes sinceros têm tropeçado na doutrina do “cair da graça” ou melhor dizendo a queda do crente do seu estado de graça.É bem verdade que este texto não é de fácil compreensão.Vamos então considerar algumas possíveis interpretações desse texto segundo alguns eruditos:

(1) O texto descreve o pecado de apostasia;
(2) O texto se refere a pessoas crentes que foram “quase salvas”, porém nunca chegaram a confiar em cristo;
(3) Descreve um possível pecado somente para os judeus que viviam enquanto o templo judeu existia;
(4) Representa um “caso hipotético” uma “Ilustração” que nunca poderia ocorrer na realidade.

Apesar de serem pontos de vista de outros devo rechaçar todas as idéias apresentadas aqui. Pois me parece que Hebreus foi escrito para crentes, porém este capítulo não descreve um pecado que faça o crente perde a sua salvação. Se mantivermos presente o contexto total do livro e se pormos atenção cuidadosa nas palavras que se usam, descobriremos que as lições principais do capítulo são: Arrependimento e Segurança.

Analisemos alguns versículos importantes neste texto (Hebreus 6)

1-Um apelo (6.1-3).
O escritor repreender severamente a seus leitores em razão de sua inapetência espiritual (5.11-14); e lhes insta a avançar para um amadurecimento (Perfeição). Aliás, este é o tema principal do livro. A palavra “Perfeição” usada aqui é a mesma que é usada na parábola do semeador em Lucas 8.14: “Os frutos não chegaram a amadurecer” esta imagem se une mais tarde, em Hebreus 6.7-8, como uma ilustração do campo. O apelo do escritor: “Vamos em frente” significa literalmente: “Sejamos levados para frente”. É a mesma palavra que se traduz “Sustenta” em Hebreus 1.3 em outras palavras, o escritor não falar de um esforço próprio, mas sim apela a que seus leitores se submetam, se rendam, ao poder de Deus, o mesmo poder que sustenta o universo inteiro.

Como podemos cair se Deus está nos sustentando?
Em lugar de avançar os judeus crentes estavam tentado colocar outra vez “um fundamento” que está descrito nos versículos 2-3.
Os elementos deste fundamento não se referem à fé cristã, como tal, mas sim as doutrinas básicas do judaísmo.

Enfrentando o fogo da perseguição estes cristãos hebreus eram tentados a “aparta-se do caminho” ao esquecendo-se da sua confissão em Cristo (4.14; 10.23). Eles já haviam deslizado pelo fato de serem meninos na fé (5.11-14); Agora estavam passíveis de retornarem ao judaísmo, colocando assim de novo o fundamento que havia preparado o caminho para Cristo e a luz plena do cristianismo.
Eles já haviam se arrependido das obras mortas, referindo-se as obras debaixo da lei (9.14). Haviam mostrado fé para Deus. Criam nas doutrinas dos lavamentos (não batismo), mas sim os lavamentos levíticos (vejam: Mc 7.4,5; Hb 9.10). A imposição das mãos se refere ao dia da expiação (Lv 16.21).Obviamente não poderiam mais voltar atrás.

2. Um argumento (6.4-8).
Nota-se desde o princípio que a questão aqui é o arrependimento, não a salvação: “Porque é impossível [...] que sejam outra vez renovados para arrependimento (VV.4,6). Se esta passagem se refere à salvação, ensina que um crente que “perde a salvação” não pode recuperá-la. Isto quer dizer que a salvação depende parcialmente de nossas obras e, uma vez que perdemos nossa salvação nunca poderemos recuperá-la.
Entretanto é preciso lembrar novamente que o tema do capítulo é o arrependimento: A atitude do crente para com a Palavra de Deus. Os versículos 4 – 5 descrevem os verdadeiros cristãos (veja 10.32; assim como 2.9,14) e o versículo 9 indica que o escritor cria que eles eram verdadeiramente salvos. Aqui não temos gente “quase salva”, mas sim verdadeiros crentes.

As palavras chaves no versículo 6 são: “Recaíram” e “Crucificado”. A palavra grega que se traduz “Recaíram” não é apostasia. A palavra grega é “Parapipto”, que significa “ cair de um lado, virar”. É similar a palavra que em Gálatas 6.1 se traduz por “Falta”. De modo que o versículo 6 descreve os crentes que têm experimentado as benções de Deus, entretanto têm cometido faltas devido a incredulidade. Havendo feito isso eles se encontram em perigo (Irão sofre o castigo divino Veja Hb 12.5-13) e podem chegar a ser “eliminados” (1 Co 9.24-27), o que resulta em perda de recompensa e em desaprovação divina, porém a salvação não é perdida. A frase “crucificando o filho de Deus”, (v.6) significa “Enquanto estão crucificando”. Em outras palavras, Hebreus 6.4-6 não ensinam que os santos que pecam não podem ser trazidos ao arrependimento, mas sim que não podem ser trazidos ao arrependimento enquanto continuem no pecado e sigam pondo em vergonha a Cristo.
Os crentes que seguem pecando demonstram que não se arrependeram. Hebreus 12.14-17 cita o caso de Esaú como um exemplo disso.

A ilustração do campo nos versículos 7-8 relaciona esta verdade à figura do fogo divino da prova; essa verdade aparece tanto em 1 Co 3.10-15 como em Hebreus 12.28-29. O fato aqui é que Deus nos salvou para produzirmos frutos; nossas vidas um dia será provada; o que fazemos e não recebe aprovação será queimado. Devemos notar que não é o campo que queima, mas sim o fruto. O crente é salvo “assim como que pelo fogo” (1 Co 3.15). Assim a mensagem desta difícil passagem é: Os crentes podem retroceder em suas vidas espirituais e trazer vergonha a Cristo. Enquanto viverem em pecado, não podem ser trazidos ao arrependimento e estão em perigo de receber o castigo divino. Se o pecado persiste em suas vidas não produzirão frutos duradouros e “sofrerão perdas” diante o tribunal de Cristo. E para que não usamos a “graça” como motivo para pecarmos, Hebreus 10.30 recorda aos crentes: “ O Senhor Julgará a seu povo”.

3. Uma segurança (6.9-20)
Nos versículos 10-12 o escritor recorda que eles haviam dado evidências de serem verdadeiros cristãos.
Nestes versículos achamos descritos a fé, a esperança e o amor, e estas três características pertencem aos verdadeiros crentes (1 Ts 1.3; Rm 5. 1-5). Porém lhes adverte no versículo 12 a não serem “preguiçosos” (a mesma palavra que em 5.11) Deus tem dado suas promessas; para recebermos a benção somente necessitamos exercer a fé e a paciência. E como ilustração usa o exemplo de Abraão. É certo que Abraão pecou, e inclusive repetiu o pecado várias vezes!
Entretanto, Deus manteve as promessas que lhe fez. Na verdade para que Deus cumpra sua promessa ele não depende da fé dos santos; depende só de Sua fidelidade (veja Gn.22.16-17) quando Deus jura por si mesmo!
Abraão não recebeu a benção prometida devido a sua bondade ou sua obediência, mas sim devido a fidelidade de Deus. Abraão experimentou muitas provas e tribulações (Assim como sofriam os leitores originais de aos Hebreus), porém Deus o conduziu a diante.

No versículo 17 o escritor disse que Deus fez tudo isso por Abraão para que os “herdeiros” pudessem conhecer a confiabilidade do conselho e da promessa de Deus. Quem são os herdeiros? De acordo com o verso 18 os herdeiros são todos os verdadeiros crentes, porque somos os filhos de Abraão segundo a fé ( veja Gálatas 3).Assim há duas coisas imutáveis que nos dão segurança: As promessas(porque Deus não pode mentir) e o juramento(porque Deus não pode mudar). A imutabilidade da Palavra e a imutabilidade da pessoa de Deus é tudo o que necessitamos para estarmos seguros de que somos salvos e estamos guardados por Deus. Temos uma esperança que é a ancora da alma e é Cristo mesmo (7.19, 20; 1 Tito 1.1).
Como podemos “deslizarmos” espiritualmente (2.1-3) quando estamos ancorados em cristo no mesmo céu?
Temos uma ancora segura e firme; e temos um “precursor” que é Cristo que nos tem aberto o caminho e vigiará para um dia nos unirmos a Ele em glória.
Em vez de assustarmos os santos levandos a pensar que estão perdidos, este maravilhoso capítulo é uma advertência contra a incredulidade e o coração não arrependido nos assegura que estamos ancorados na eternidade.