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A HERESIA DE COLOSSOS

(William Barclay)

Ninguém pode dizer com segurança em que consistia a heresia que ameaçava a vida da Igreja colossense. "A heresia colossense" é um dos grandes problemas na investigação do Novo Testamento. Tudo o que podemos fazer é ir à própria Carta para buscar ali os elementos de juízo. Faremos uma lista das características para detectar aqui alguma tendência herética geral que corresponda ao quadro.

(1) Certamente havia uma heresia que atacava a suficiência plena e supremacia única de Cristo. Nenhuma carta paulina tem uma visão mais sublime de Cristo nem maior insistência em sua perfeição e sua finalidade. Jesus Cristo é a imagem do Deus invisível; nele habita toda a plenitude (1:15,19). Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (2:2). Nele habita a plenitude da divindade em forma corporal (2:9). Jamais se fizeram nem podem fazer-se maiores afirmações sobre Cristo.

(2) Devemos advertir deste modo que Paulo incorre numa digressão para sublinhar a parte que Jesus Cristo desempenhou na criação, a obra criadora do Filho. Por Ele foram criadas todas as coisas (1:16); nEle tudo subsiste (1:17). O Filho foi o instrumento do Pai na criação do universo.

(3) Mas também Paulo abandona as linhas de seu pensamento para sublinhar a humanidade real de Jesus Cristo: sua humanidade de carne e sangue. Em seu próprio corpo carnal levou a efeito a obra redentora (1:22). A plenitude da divindade habita nEle (somatikos) em forma corporal (2:9). Com toda sua divindade, Jesus Cristo é real e verdadeiramente carne e sangue humanas.

(4) Dá a impressão de que nesta heresia havia algum elemento astrológico. Em 2:8 diz-se que os colossenses iam após os rudimentos deste mundo; em 2:20, que devem morrer aos rudimentos deste mundo. A palavra para rudimentos é stoiqueia, termo que tem dois significados.

(a) Seu sentido básico é de fileira. Pode aplicar-se, por exemplo, a uma fila de soldados. Mas um de seus significados mais comuns é o de A B C: letras do alfabeto colocadas como se estivessem em fila. A partir daqui o significado passa aos elementos de qualquer matéria: os rudimentos, os primeiros elementos, o próprio A B C. Se for assim, Paulo pensa que os colossenses estão dando marcha à ré num tipo de cristianismo elementar enquanto que, pelo contrário, deveriam avançar rumo à maturidade.

(b) Mas pensamos que o segundo significado é mais provável. Stoiqueia pode significar os espíritos elementares do mundo, especialmente os espíritos dos astros e planetas. O mundo antigo estava dominado pelo pensamento da influência dos astros. Nem os homens mais velhos e sábios agiam sem consultar os astros. O mundo antigo
pensava que as coisas e os homens estavam submetidos a um poder fatal, férreo pela influência dos astros; a astrologia pretendia brindar aos homens as palavras-chaves ou o conhecimento secreto que os livraria de sua escravidão aos espíritos elementares do mundo. É mais provável que os falsos professores colossenses tivessem ensinado a necessidade de algo mais que Jesus Cristo para livrar os homens da sujeição aos espíritos elementares do mundo e aos astros.

(5) Esta heresia dava muita importância ao poder dos espíritos demoníacos. Há freqüentes referências aos principados e potestades, nomes que Paulo aplica a esses espíritos (1:16; 2:10; 2:15). O mundo antigo cria implicitamente nestes poderes demoníacos. O ar estava infestado deles. Cada força natural — o vento, o trovão, o raio, a chuva — tinha seus diretores demoníacos. Cada lugar, cada árvore, cada rio, cada lago, tinham seu espírito. A atmosfera estava infestada dos que em certo sentido eram considerados intermediários de Deus mas que constituíam um impedimento porque a imensa maioria eram hostis ao homem. O mundo antigo vivia num universo obcecado pela idéia dos demônios. Evidentemente os falsos mestres colossenses diziam que se requeria algo mais que Cristo para derrotar o poder demoníaco; que Jesus Cristo não era suficiente para tratar com eles por si mesmo, mas sim requeria a ajuda de algum outro conhecimento e poder.

(6) Nesta heresia existia com certeza o que poderíamos chamar um elemento filosófico. Os hereges arruinavam os homens com filosofia e vãs sutilezas (2:8). Certamente afirmavam que a simplicidade do evangelho necessitava o agregado de um conhecimento muito mais elaborado e recôndito.

(7) Nesta heresia existia uma tendência a insistir na observância de dias e rituais especiais: festividades, luas novas e dias de repouso (2:16). O ritualismo e a observância particular de tempos e estações era um traço distintivo da falsa doutrina.

(8) Esta heresia continha certamente um elemento supostamente ascético. Estabelecia leis sobre comidas e bebidas (2:16). Seus lemas eram: “Não toques, não proves, não manuseies” (2:21). Limitava a liberdade cristã por meio de toda sorte de insistências em ordenanças, leis e prescrições legalistas.

(9) A heresia possuía igualmente, ao menos às vezes, um rasgo antinômico: fazia com que os homens descuidassem a pureza e castidade próprias do cristão para pensar com ligeireza sobre o físico e os pecados corporais (3:5-8).

(10) Aparentemente a heresia dava pelo menos certo lugar ao culto dos anjos (2:18). Ao lado dos demônios introduzia intermediários angélicos entre o homem e Deus.

(11) E, finalmente, parece que a heresia continha algo que poderia chamar-se esnobismo espiritual e intelectual: em 1:28 Paulo expressa sua aspiração de admoestar a todo homem, de ensinar a todo homem em toda sabedoria, de apresentar a todo homem perfeito em Jesus Cristo. Vemos com que ênfase a frase todo homem se repete reiteradamente, expressando a aspiração de tornar o homem perfeito em toda sabedoria.