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Brevíssima introdução ao conceito de História da Redenção

Brevíssima introdução ao conceito de História da Redenção
(Reverendo Adriano Carvalho)

Introdução

O objetivo deste artigo é descrever a origem e as características da abordagem ao Novo Testamento conhecida como “História da Redenção”. Esta abordagem assume como este artigo mostrará adiante, que a pregação da igreja primitiva (com mais veemência em Paulo) era controlada pela convicção  de que Deus cumpriu na história as  antigas promessas feitas através dos profetas de Israel. Para os apóstolos(e Paulo novamente aqui tem destaque) este cumprimento tem relação direta e inalienável com a vida e obra de Jesus Cristo: sua encarnação, morte, ressurreição e exaltação inauguram a etapa final da série de eventos históricos- redentivos da intervenção de Deus no mundo¹.


A origem do termo
Riemer Roukema² argumenta que o termo "história da redenção" fora cunhado pelo teólogo J. C. K.  Von Hofmann, que ensinou em Erlangen (Alemanha). Segundo Roukema por volta da metade do século XIX, Hofmann se esforçou para demonstrar pelas Escrituras o desenvolvimento histórico constante de comunhão de Deus com a humanidade.  Este esforço tinha como base o esquema Weissangung und Erfuillung( profecia e cumprimento), neste esquema que foi título de dois volumes escritos em 1.841-1.844, Hofmann vê Cristo como o centro da história³.  Em seus trabalhos ele dedicou atenção especial ao caráter histórico do plano de redenção que se desenrola desde a criação até a consumação de Deus4. Contudo, ele não teria sido o primeiro nessa empreitada, ao que tudo indica, Irineu de Lyon ( 180 d.C) já teria esboçado pensamento  parecido 5.


História da Redenção e o desenvolvimento da Teologia Bíblica

O desenvolvimento do conceito de História da Redenção concorreu para o estabelecimento da teologia bíblica. Quando J. C. K. Von Hofmann esboça seu esquema da Weissagung und Erfuillung, ele estava tentando seguir a proposta de Gabler(1787), o qual intentou desenvolver uma teologia bíblica para libertar a bíblia do uso dogmático unilateral. Mas, o estabelecimento da ideia de uma Teologia Bíblica como proposta por Gabler sofreria resistência. Abraham Kuyper, por exemplo, rejeitou o termo Teologia Bíblica, pois segundo ele os escritores bíblicos não tinham uma teologia e não trabalhavam como teólogos. Para Kuyper a suposição de que os escritores bíblicos tinham uma teologia, não era compatível, com a doutrina bíblica, que afirma que eles escreveram sob inspiração do Espírito Santo.  Assim, Kuyper argumentou que o que Gabler chama de Teologia Bíblica deveria ser na verdade chamada de História da Revelação6. Na verdade, como observou Donald Guthrie, embora houvesse um maior interesse no pensamento Reformado na Teologia Bíblica, a teologia protestante (da Reforma até o alvorecer do Racionalismo) não fez provisão para uma revelação progressiva: “A ideia de uma teologia seria estranha nessa época, já que Cristo era visto tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, e a unidade da Escritura impedia que a Teologia do Novo Testamento fosse estudada como um entidade distinta”7
Para Ridderbos os aspectos históricos e escatológicos da revelação bíblica do reino de Deus não eram proeminentes na teologia dos Reformadores8. Em Lutero especialmente a doutrina de Paulo sobre a justificação pela fé tornou-se o critério para a sua avaliação de todo o Novo Testamento9.

O moderno período crítico

Conforme observado por Guthrie10 foi com o surgimento do moderno período crítico, que cobriu os últimos dois séculos, que fomentou-se o estudo da teologia bíblica, como consistindo em uma disciplina histórica. Neste período desejava-se o afastamento da dogmática (filosofia dos homens) e a aproximação com uma disciplina que fosse histórica, nesse caso, a teologia bíblica. Assim, reconhecida a importância da teologia bíblica, buscou-se compreender o edifício que sobre ela fora erigido. Neste empreendimento os liberais saíram na frente. Eles abriram um caminho para abordagem ao Novo Testamento(conforme observa Guthrie) sob a influencia da  filosofia e de Hegel. Tal influência, levou-os a uma reconstrução radical da história cristã primitiva que corroeu e afetou a teologia do período primitivo. Estudiosos como F. C. Baur, Holtzamann, repercutiram essa teologia primitiva corroída. Contudo, mesmo em meio a muitas distorções, ficava mais nítido a necessidade de se estudar a teologia em seu contexto histórico. Nitidez que segundo alguns veio com Wrede ao reagir de maneira extremada contra as considerações dogmáticas em sua abordagem ao Novo Testamento. Esta reação seria também compartilhada por Bultmann.
Outro nome importante em favor da teologia bíblica foi Oscar Cullmann. Ele fazia parte de um movimento que buscava descobrir uma unidade dentro da variedade do Novo Testamento. Para Cullmann, os atos de Deus, tanto quanto suas palavras são fundamentais para a salvação. A história é vista, portanto, como de grande importância na abordagem da teologia do Novo Testamento.

Paulo e o conceito de História da Redenção

Assumida a possibilidade de uma teologia bíblica, os estudiosos com o terreno pavimentado, partem em direção à compreensão do pensamento paulino. Nesta direção segundo Augustus Nicodemus Lopes11 estudiosos como Schweitzer, C.H. Dodd, Bultmann entre outros, teriam como tendência considerar a existência de um aspecto escatológico, histórico-redentivo na pregação do apóstolo Paulo. No centro da mensagem do apóstolo estaria à proclamação e a explicação do tempo escatológico de salvação inaugurado com o advento de Cristo, sua morte e ressurreição. O motivo regente da sua pregação seria a atividade salvífica de Deus em Cristo12: os poderes do mundo vindouro teriam penetrado na história na pessoa e obra de Jesus Cristo. E aqueles que pela fé estão unidos a Cristo teriam sido transferidos do presente século mau para o poder da era escatológica do Espírito. Eles entraram no Reino de Deus13. Este é um ensino bem antigo e remontaria a Irineu de Lyon. O qual em sua em sua recapitulatio (recapitulação) defendeu paralelos entre Adão no jardim e o Adão na encarnação (Jesus). Para Irineu Jesus Cristo como o segundo Adão desfaz o que o primeiro fez. Na sua visão da história da redenção havia dois Adão. E em Cristo, o segundo Adão, toda a história da redenção se resume14.

Herman Ridderbos

Alguns estudiosos têm afirmado que o teólogo holandês Herman Ridderbos prestou um serviço imensurável ao estudo do Novo Testamento por sua abordagem da História da Redenção como uma perspectiva fundamental em Paulo15.
Ridderbos no desenvolvimento desta abordagem percebe uma diferença considerável entre Paulo e Lutero. O reformador alemão, argumenta ele, via a justificação pela fé como uma libertação de uma crise religiosa, que alteraria a ordo salutis. Já Paulo, argumenta o teólogo holandês, não sofreu uma reversão em sua mente no que diz respeito à ordo salutis, como a que ocorreu na mente de Lutero. O que houve com Paulo, diz respeito, em primeiro lugar à história da salvação no sentido objetivo da palavra. Deus prossegue Ridderbos, revelou-se a Saulo  no caminho de Damasco, que Jesus de Nazaré, crucificado e perseguido era o Messias. Esta certeza avassaladora que no Salvador crucificado e ressuscitado o tempo de Deus havia chegado, tornou-se o tema principal do seu ministério e das suas epístolas ( 2 Co 5.17; 6.2 ; 2 Tm 1.10;Cl 1.26; Rm 16.26; Gl 4.4. Para Ridderbos a natureza da missão e do ministério de Paulo era definida pela história da Redenção16: " A pregação de Paulo era controlada pela consciência que ele tinha de que os últimos dias raiaram, dias de cumprimento das antigas promessas dos profetas de Israel, nos quais a nova era, a nova criação é inaugurada em Cristo Jesus” 17.  No pensamento de Paulo o advento de Cristo irrompeu o momento decisivo e final da história humana 18.


Conclusão

Neste conciso artigo buscou-se afirmar que pregação dos primeiros cristãos( em Paulo com mais destaque) era controlada pela consciência de que o tempo escatológico da salvação prometida no Antigo Testamento foi inaugurado com a Vinda de Cristo a este mundo. E que é desta perspectiva e sob esse denominador que  todos os temas diferentes e isolados do ensino Paulino podem ser penetrados e entendidos em sua unidade e em sua relação mútua. O motivo regente da pregação deste apóstolo era a atividade salvífica de Deus no advento, morte e ressurreição de Cristo: Toda a sua teologia  padece sob a impactante influência deste evento singular.


 _____________________
¹Lopes, Augustus Nicodemus .Teologia Paulina. Disponível em: http://ead.mackenzie.br/cpaj/pluginfile.php/12364/mod_resource/content/1/apostila.pdf

² Roukema, Riemer. Herman Ridderbos's Redemptive-Historical exegesis of the New Testament.

³ Ibidem.
4 Ibidem.
5 Ibidem.

 Roukema, Riemer. Herman Ridderbos's Redemptive-Historical exegesis of the New Testament.

7Guthrie, Donald. Teologia do Novo Testamento.

8 Ridderbos, Herman N. When the time had fully come- Studies in New Testament Theology.
9 Ibidem.

 10Guthrie, Donald. Teologia do Novo Testamento.

11Lopes, Augustus Nicodemus.Teologia Paulina.

12 Walt Russel. The apostle Paul's redemptive-historical argumentation in Galatians 5.13-26.

13Irons, Lee. Redemptive-historical Preaching. Disponível em: http://www.kerux.com/doc/1602A4.asp

14Dennison, James, Jr. Irenaeus and Redemptive history.

15 Russel, Walt. The apostle Paul's redemptive-historical argumentation in Galatians 5.13-26.

16Ridderbos, Herman N. When the time had fully come- Studies in New Testament Theology.
17Lopes, Augustus Nicodemus.Teologia Paulina.
18 Ibidem.